“Escrever é usar as palavras que se guardam: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer.” Foi assim que este livro me conquistou. Com esta passagem roubada à página 100 e colocada na aba.
É, daqueles livros que se devoram numa qualquer tarde de manta e chuva. Daqueles livros que sai das paginas e se aloja cá dentro. Daqueles livros que vai crescer e mudar connosco. E daqueles livros que sabemos que um dia mais tarde, ou amanhã, vamos reler.
E foram tantas as passagens roubadas às 125 paginas e copiadas para a moleskine.
"Hoje já ninguém vai ao nosso deserto, Cláudia. A razão principal é que já não há muita gente que tenha tempo a perder com o deserto. Não sabem para que serve e, quando me perguntam o que há lá e eu respondo “nada” , eles riscam mentalmente essa viagem dos seus projectos. Viajam antes em massa para onde toda a gente vai e todos se encontram. As coisas mudaram muito, Cláudia! Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem bombardeando-se de telefonemas, mensagens, escritas, mails e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro, fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, a biografia das suas vidas, som amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divertidos, “leves”, disponíveis, sensíveis e interessantes. E é por isso que vivem esta estranha vida: porque, muito embora julguem poder ter o mundo aos seus pés, não aguentam nem um dia de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. Ninguém capaz de enfrentar toda aquela solidão."
(Excerto de: Miguel Sousa Tavares , “No Teu Deserto” – um quase romance)
