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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

10 de Dezembro de todos os anos

Escrever-te.
Não creio que saibas o quão difícil é escrever a ti ou para ti. Hoje, gostava de pedir, de novo emprestadas, as palavras do Vinicius do seu soneto de aniversário. Mas não posso. Roubei e entreguei-tas o ano passado. Tu, como mulher de bom gosto, ficaste com elas. E eu como ser inconsequente e impulsivo, não pensei a longo prazo e fiquei sem elas.

Hoje neste teu dia, apetecia-me reduzir-te a palavras. Escarrapachar aqui quem és. Seria ao mesmo tempo um exercício de cobardia e de coragem e um dos melhores textos que já escrevi. Não porque tenha passado a escrever melhor hoje, ou porque conheça as palavras, que não conheço, que seriam capazes de te descrever. Não. Seria um dos melhores textos porque teria cor. Todas as cores. Teria cheiro. A cidade, a passado, a Europa, a leste, a presente, a sol, a infância, a lugar secreto, a abrigo, a palco, a futuro. Teria suspense e dúvida… daquela que gostas de deixar no ar com o teu toque de intangível e enigmática. Teria som. A chuva, a mar, a ervas a bailarem ao vento. E se pudesse ter um sabor seria a chocolate. A todos. Aos bons.

Este texto, se o escrevesse, teria tudo. Só não te teria a ti. Que és única. E é por isso, que neste TEU dia especial, queria escrever qualquer coisa, mas só me sai que… Amiga, gosto de ti o suficiente para não o escrever e ficar aquém, até da tua sombra. Feliz aniversário.



quinta-feira, 18 de junho de 2009

Ser estranho

Sunflowers (1888), Van Gogh

Embora o meu quadro favorito seja de Munch, é de Van Gogh que sou fã. Um pintor pós-impressionista com as aspirações modernistas cujas pinceladas me cativam pelo expressionismo, fauvismo e abstraccionismo. Dizem de Van Gogh que era estranho (provavelmente à conta das suas crises de epilepsia) e que as suas pinturas também.

Hoje classifiquei alguém como um ser estranho e arrependi-me no segundo seguinte. Esqueço-me muitas vezes que as minhas palavras, muitas vezes, não são as dos outros. A maioria das pessoas atribui uma conotação pejorativa a “ser estranho”. Eu não. E esqueci-me disso. Estranho para mim é alguém que ainda não conheço. Estranho é alguém diferente. Estranho é algo que, com ou sem propósito, foge da normalidade. Estranho é o contrário de vulgar.

E como por cobardia de mal entendido, retirei com a frase mágica "estava a brincar", o que tinha dito, já não fui a tempo de explicar que... Estranho hoje, queria dizer (a alguém) que é, especial. Tal como as pinturas do Van Gogh, que nem sorriem ou abraçam e ainda assim valem milhões.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Lisbon Story

No Ipod a melodia suave de Sigur Rós acompanha, a compasso, o inicio de marcha do Intercidades. Ainda em Lisboa, divido a atenção entre a janela e as ultimas páginas livres do Moleskine, enquanto deixo escorrer a tinta azul da eterna Parker, para o caderninho preto.


No horizonte (rendo-me) surgem as palmeiras do Siza sob um sol dourado delicioso e com uma luz perfeita. Sorrio. Perfeita, é exactamente a palavra para esta luz… para esta tarde. Não é exuberante, transcendente, sublime, brutal, outro sinónimo ou todos juntos. Não. Perfeita, porque a perfeição é simples, livre, sem expectativas, sem julgamentos, sem sombras.


Que lugar fantástico este que se pinta a dourado na minha janela. Cada lugar que guardamos na memória, tem uma cor, um cheiro e uma luz que os distingue dos outros, que os torna únicos. Há dias divagava com uma amiga sobre como há sítios assim e pessoas que acabam por se transformar em lugares favoritos.


Hoje encontrei alguém que me lembra um lugar que julgava único. Hoje encontrei alguém que me lembra Praga. Praga é única porque não tem uma cor, tem várias e é belíssima mesmo em tons de cinza-chuva. Praga não tem um cheiro, tem todos, cheira a cidade, a passado, a Europa, a leste, a presente, a sol, a infância, a lugar secreto, a abrigo, a palco, a futuro. Praga não tem um sabor, tem os melhores sabores de todo o mundo… daqueles que guardamos na memória, sentidos e saudade durante anos.


Praga fica em nós. Não se entranha porque, embora existam aqueles que a consideram desarrumada, inacabada ou produto em bruto, Praga é dos sítios mais delicados que conheço. Praga fica em nós sim, mas por osmose, num processo tão imperceptível quanto natural.


Mas Praga não é fácil e jamais será possível conhece-la por inteiro. Praga é por isso um desafio, exige que o passaporte apresente diversos carimbos para que a possamos viver, conhecer e desfrutar. Obriga-nos a fazer uma janelinha com os polegares e indicadores e analisar calmamente bocadinho a bocadinho, como se de um puzzle se tratasse. E Praga é precisamente isso, um puzzle feito de bocadinhos perfeitos e lindíssimos e outros estranhos e confusos. Unidas, as peças formam sentido num todo magnífico que tem ainda a magia de apresentar diferentes faces em diferentes ângulos a diferentes luzes ou mãos.


Praga não tem os marcos de Paris, a arquitectura de Barcelona, a bipolaridade de Budapeste, a cultura de Viena, a organização de Copenhaga, os sonhos de Londres e da sua Neverland onde seremos para sempre crianças ou o 24/7 Non Stop de Nova York. Praga não tem nada disto porque Praga não tem rótulo. Praga não tem nada disto porque Praga tem tudo isto, dependendo apenas da hora, da luz, do ângulo, da janelinha que naquele momento analisamos. Praga é dona de um brilho impar que nos aquece o corpo, faz cócegas na alma e deixa sorriso no rosto.


PS & Head fake: o título não engana, aos mais distraídos avisa-se que este texto não é sobre Praga, e sim Lisboa. Lisboa na língua da cidade dos snow globes, pintada com uma luz imensa e brilho contagiante. Lisboa ao som, cor e espírito (islandês) de Hoppipolla (em português Salta-Pocinhas).




PS2: O sorriso da linha 6 mantém-se, porque hoje fui a Lisboa e estive novamente em Praga, e que saudades que eu tinha. Até sempre.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Amigo é Casa

Amigo é feito casa que se faz aos poucos 
e com paciência pra durar pra sempre 
Mas é preciso ter muito tijolo e terra 
preparar reboco, construir tramelas 
Usar a sapiência de um João-de-barro 
que constrói com arte a sua residência 
há que o alicerce seja muito resistente 
que às chuvas e aos ventos possa então a proteger 
E há que fincar muito jequitibá 
e vigas de jatobá 
e adubar o jardim e plantar muita flor toiceiras de resedás 
não falte um caramanchão pros tempos idos lembrar 
que os cabelos brancos vão surgindo 
Que nem mato na roceira 
que mal dá pra capinar 
e há que ver os pés de manacá 
cheínhos de sabiás 
sabendo que os rouxinóis vão trazer arrebóis 
choro de imaginar! 
pra festa da cumieira não faltem os violões! 
muito milho ardendo na fogueira 
e quentão farto em gengibre 
aquecendo os corações 
A casa é amizade construída aos poucos 
e que a gente quer com beira e tribeira 
Com gelosia feita de matéria rara 
e altas platibandas, com portão bem largo 
que é pra se entrar sorrindo 
nas horas incertas 
sem fazer alarde, sem causar transtorno 
Amigo que é amigo quando quer estar presente 
faz-se quase transparente sem deixar-se perceber 
Amigo é pra ficar, se chegar, se achegar, 
se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer 
Amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha 
e oferece lugar pra dormir e comer 
Amigo que é amigo não puxa tapete 
oferece pra gente o melhor que tem e o que nem tem 
quando não tem, finge que tem, 
faz o que pode e o seu coração reparte que nem pão.



ps: Não faço qualquer ideia como te dizer que és refém de um orgulho idiota. Provavelmente só o compreenderás quando souberes que vou morar para África. Quando souberes por outra boca que não minha. 

terça-feira, 2 de junho de 2009

Com um brilhozinho nos olhos

Conheço alguém cuja casa nunca visitei ou convidei para a minha. Alguém com quem nunca jantei fora, tomei café ou saí noite dentro. Alguém com quem ainda não me sentei a apanhar sol ou respirar tempo numa esplanada. Alguém que jamais assistiu ao complicado processo de me ver comer um qualquer gelado sem fazer asneiras e que nunca vi a entornar chávenas de café ou a fazer voar oregãos.
Conheço alguém que nunca abracei, que nunca me abraçou. Alguém que nunca me viu chorar e a quem nunca sequei as lágrimas. Alguém que apesar de merecer, nunca teve o meu colo, cafuné ou me ouviu segredar ao ouvido “vai correr bem. Tu ainda não sabes mas tudo vai terminar bem”. 
Conheço alguém que nunca vi. Conheço alguém que me diz que não me conhece, que não conheço. Sei que o seu olhar brilha, que tem vários sorrisos, todos sinceros e contagiantes. Sei os seus livros, poemas, filmes, bandas, séries, músicas e dias favoritos. Sei os seus amigos. E sinto os sorrisos que dedica a cada um. Todos diferentes, todos especiais. Sei quando faz troça, quando é sincera, quando é bluffer ou quando é apenas uma menina de olhos grandes à espera que reparem nela e no quanto tem para oferecer. Reconheço qualidades e acho piada aos defeitos. É alguém que tem a capacidade de me irritar, tirar do sério e fazer rir às lágrimas no minuto seguinte.Alguém que, como eu, fala com as mãos, com o sorriso, os olhos, o coração e por vezes com o tico e o teco.  Alguém que ama, que sofre, que sente. Cai e se levanta.  
Conheço alguém que nunca vi mas que gostava de partilhar uma esplanada, numa tarde com sol, sem horas e sem objectos que possam sair a voar mesa e espaço fora. Alguém com quem um dia espero partilhar uma sala dos professores, mesmo que isso implique o batismo de um qualquer ninckname. Alguém que me diz que não me conhece, que não conheço, mas que gosta de Vinicius. E vinicius sabe que Amigos não se fazem, reconhecem-se. 

Conheço tão bem esses olhos
e nunca me enganam,
o que é que aconteceu, diz lá
é que hoje fiz um amigo
e coisa mais preciosa 
no mundo não há.
Sérgio Godinho

terça-feira, 26 de maio de 2009

to a FIREFLY

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude 
Para comprar o que não tem perdão. 
Porque os outros têm medo mas tu não. 
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não. 
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos. 
Porque os outros calculam mas tu não.
          Sophia

sábado, 25 de outubro de 2008

Do lado esquerdo do peito, com amor.

"Quando um amigo morre, tanto faz que tenha sido há dez, vinte ou trinta anos."

Vasco Pulido Valente
in Público, 25.10.2008

(a próposito do aniversário da morte de José Cardoso Pires)