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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

10 de Dezembro de todos os anos

Escrever-te.
Não creio que saibas o quão difícil é escrever a ti ou para ti. Hoje, gostava de pedir, de novo emprestadas, as palavras do Vinicius do seu soneto de aniversário. Mas não posso. Roubei e entreguei-tas o ano passado. Tu, como mulher de bom gosto, ficaste com elas. E eu como ser inconsequente e impulsivo, não pensei a longo prazo e fiquei sem elas.

Hoje neste teu dia, apetecia-me reduzir-te a palavras. Escarrapachar aqui quem és. Seria ao mesmo tempo um exercício de cobardia e de coragem e um dos melhores textos que já escrevi. Não porque tenha passado a escrever melhor hoje, ou porque conheça as palavras, que não conheço, que seriam capazes de te descrever. Não. Seria um dos melhores textos porque teria cor. Todas as cores. Teria cheiro. A cidade, a passado, a Europa, a leste, a presente, a sol, a infância, a lugar secreto, a abrigo, a palco, a futuro. Teria suspense e dúvida… daquela que gostas de deixar no ar com o teu toque de intangível e enigmática. Teria som. A chuva, a mar, a ervas a bailarem ao vento. E se pudesse ter um sabor seria a chocolate. A todos. Aos bons.

Este texto, se o escrevesse, teria tudo. Só não te teria a ti. Que és única. E é por isso, que neste TEU dia especial, queria escrever qualquer coisa, mas só me sai que… Amiga, gosto de ti o suficiente para não o escrever e ficar aquém, até da tua sombra. Feliz aniversário.



quinta-feira, 8 de outubro de 2009

The Space Between Us

Em cada clarão, vi-te. E em alguns vi-nos a nós. E isto durante todo os minutos das longas hora do temporal de ontem. Foi só quando um dos relâmpagos atingiu uma árvore do outro lado da estrada que fui obrigada a desenterrar a cabeça da almofada e a enfrentar a realidade de que não estavas ali.

Mas, não foi isso que me magoou, não foi isso que me fez ficar encharcada em suor, em febre, em frio. Foi o perceber que o meu inconsciente sabia mais que eu. Os flashes de imagens mostravam-te somente a ti e a memorias de nós, por muito perto que estivéssemos jamais nos tocávamos. O meu inconsciente sabia o que só nesta madrugada percebi... O nosso amor, por muito e tudo o que tenha sido, jamais foi nosso. Meu e teu. Meu. Teu. Esse amor foi sempre aquele... e daquele curto e mágico espaço entre o nosso olhar, o nosso rosto, o nosso corpo.

Agora diz-me, não podia ter percebido isto em qualquer outra madrugada que não a do sétimo aniversário daquela em que me apaixonei por ti?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Reino do Maravilhoso II

Palavra de honra que hoje me doí o peito de saudades daquela escola entre Douro e vinhas, daqueles miúdos quase da minha idade que tinham da melhor educação, simpatia e coração, daqueles amigos que iam e com quem íamos de propósito à escola tomar café... de jantar no cais da Régua.

Professora, faz cá tanta falta. Não meus amores, esse lugar único, cheio de pessoas lindas, perdido no tempo e no espaço é que me faz falta a mim. Muita, e em dias como hoje, demasiada.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Lisbon Story

No Ipod a melodia suave de Sigur Rós acompanha, a compasso, o inicio de marcha do Intercidades. Ainda em Lisboa, divido a atenção entre a janela e as ultimas páginas livres do Moleskine, enquanto deixo escorrer a tinta azul da eterna Parker, para o caderninho preto.


No horizonte (rendo-me) surgem as palmeiras do Siza sob um sol dourado delicioso e com uma luz perfeita. Sorrio. Perfeita, é exactamente a palavra para esta luz… para esta tarde. Não é exuberante, transcendente, sublime, brutal, outro sinónimo ou todos juntos. Não. Perfeita, porque a perfeição é simples, livre, sem expectativas, sem julgamentos, sem sombras.


Que lugar fantástico este que se pinta a dourado na minha janela. Cada lugar que guardamos na memória, tem uma cor, um cheiro e uma luz que os distingue dos outros, que os torna únicos. Há dias divagava com uma amiga sobre como há sítios assim e pessoas que acabam por se transformar em lugares favoritos.


Hoje encontrei alguém que me lembra um lugar que julgava único. Hoje encontrei alguém que me lembra Praga. Praga é única porque não tem uma cor, tem várias e é belíssima mesmo em tons de cinza-chuva. Praga não tem um cheiro, tem todos, cheira a cidade, a passado, a Europa, a leste, a presente, a sol, a infância, a lugar secreto, a abrigo, a palco, a futuro. Praga não tem um sabor, tem os melhores sabores de todo o mundo… daqueles que guardamos na memória, sentidos e saudade durante anos.


Praga fica em nós. Não se entranha porque, embora existam aqueles que a consideram desarrumada, inacabada ou produto em bruto, Praga é dos sítios mais delicados que conheço. Praga fica em nós sim, mas por osmose, num processo tão imperceptível quanto natural.


Mas Praga não é fácil e jamais será possível conhece-la por inteiro. Praga é por isso um desafio, exige que o passaporte apresente diversos carimbos para que a possamos viver, conhecer e desfrutar. Obriga-nos a fazer uma janelinha com os polegares e indicadores e analisar calmamente bocadinho a bocadinho, como se de um puzzle se tratasse. E Praga é precisamente isso, um puzzle feito de bocadinhos perfeitos e lindíssimos e outros estranhos e confusos. Unidas, as peças formam sentido num todo magnífico que tem ainda a magia de apresentar diferentes faces em diferentes ângulos a diferentes luzes ou mãos.


Praga não tem os marcos de Paris, a arquitectura de Barcelona, a bipolaridade de Budapeste, a cultura de Viena, a organização de Copenhaga, os sonhos de Londres e da sua Neverland onde seremos para sempre crianças ou o 24/7 Non Stop de Nova York. Praga não tem nada disto porque Praga não tem rótulo. Praga não tem nada disto porque Praga tem tudo isto, dependendo apenas da hora, da luz, do ângulo, da janelinha que naquele momento analisamos. Praga é dona de um brilho impar que nos aquece o corpo, faz cócegas na alma e deixa sorriso no rosto.


PS & Head fake: o título não engana, aos mais distraídos avisa-se que este texto não é sobre Praga, e sim Lisboa. Lisboa na língua da cidade dos snow globes, pintada com uma luz imensa e brilho contagiante. Lisboa ao som, cor e espírito (islandês) de Hoppipolla (em português Salta-Pocinhas).




PS2: O sorriso da linha 6 mantém-se, porque hoje fui a Lisboa e estive novamente em Praga, e que saudades que eu tinha. Até sempre.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Provérbio tibetano

As minhas quintas-feiras são, há muito, pródigas em almoços/jantares nos sítios ou cidades mais inesperadas. São também pródigas em conversas de horas pela tarde, noite ou madrugada fora. Onde com a boa disposição surgem lições e verdades de outros que se colam à nossa alma, à nossa vida. Ontem foi mais um desses jantares, foi mais uma dessas madrugadas.

Quando fico chateada, irritada, magoada, triste e/ou outros estados afins com alguém que me diz, verdadeiramente algo… calo-me. Todos que conhecem sabem que um sagitário em silêncio é uma bomba relógio de mau humor, de raiva, de dor. Ontem a determinado ponto da conversa calei-me… Dizia uma amiga, a propósito dos touros, que existem pessoas que só reagem a palavras más. Que recebem as boas e calam. Não reagem. Dizia ela que reagem se picados, e, se mal-tratados desfazem-se em palavras e gestos de atenção, cuidado e afecto. Nunca percebi o quanto mais me bates mais gosto de ti. Em verdade, recuso-me a aceitar tal coisa. E por isso continuei a ouvi-la, em silêncio. Falou das minhas palavras, dos meus gestos, dos meus sentimentos bons… e deixou-me perceber que o melhor de mim há muito que não tem resposta adequada ou resposta sequer. Que todas as reacções dignas ou gestos de alguma relevância dos últimos meses, tinham na equação o meu pé. Apenas quando batia o pé e dizia não, mais não. Há coisas que não merecemos de determinadas pessoas. Mais, há coisas que não merecemos de ninguém.

Ouvi em silêncio e quis chorar. Senti formar-se o cocktail de mau-humor, de raiva, dor e desamor. Não chorei. Agradeci, despedi-me e entrei no carro com a certeza que ela tinha razão. E, embora suplique em silêncio como o Miguel Esteves Cardoso, para que me devolvas a minha vida e o meu tempo, para que digas qualquer coisa a este coração palerma que não sabe nada de nada, que julga que andas aqui perto e chama sem parar por ti, tenho a certeza que irei sempre preferir reagir às palavras boas e tentar seguir em frente nas más.

Hoje neste dia de merda que não partilhei contigo odeio-te. E porque por 24 horas te odeio, hoje é um dia de merda. Hoje, venha uma reacção tua a este provérbio tibetano que tenho para ti: vai 'pó caralho.